Artigo Mudança da Hora

Os ritmos circadianos são ritmos biológicos com uma duração de aproximadamente 24h, ou seja, cerca de 1 dia, daí serem denominados de ritmos circadianos. Estes ritmos são endógenos, têm uma origem genética, funcionam mesmo na ausência de pistas externas, mas sincronizam com pistas externas.  O sincronizador primordial dos nossos ritmos biológicos é o estímulo luminoso, sendo tão importante a luz como a sua ausência para uma adequada sincronização ao ciclo dia/noite. Ou seja, o nosso relógio biológico é sincronizado pelo relógio solar.

Os nossos ritmos circadianos, que são sincronizados pela luz, modulam a nossa fisiologia, do metabolismo ao comportamento. O ritmo circadiano comportamental fundamental, e mais facilmente percecionado, é o ritmo do sono/vigília. O ritmo sono/vigília é, no entanto, acompanhado por outros ritmos biológicos, também eles com variação circadiana tais como a temperatura, a produção de algumas hormonas (melatonina, cortisol, testosterona) e todos estes ritmos variam de uma forma cíclica e concertada, proporcionando um bom sono e uma boa vigília. Esta sincronização é tanto maior quanto a sincronização entre o horário solar e o relógio biológico. 

Vários países, incluindo Portugal adotam uma alteração da hora social nos períodos da primavera e do outono. Esta alteração trata-se do adiantamento artificial do relógio social em 1h que ocorre após a primavera voltando à hora padrão no período do outono e que irá ocorrer já no próximo fim-de-semana (à 1h da manhã passaram a ser 2h da manhã de acordo com a hora social/do relógio). Ao longo do ano os dias são naturalmente mais pequenos no inverno, crescendo com a aproximação da primavera e ao longo dos séculos os organismos adaptaram-se a esta variação anual da exposição à luz, sincronizando à mesma. Este adiantamento artificial da hora social no período da primavera origina um desalinhamento entre a hora social e a hora solar e biológica. A hora de adormecer mantêm-se a mesma (pois é ditada pelo relógio biológico como dito anteriormente) no entanto a hora de acordar ocorre mais cedo, pois irá ser ditada pela hora social imposta pelo relógio social. Desta forma, assistimos a uma redução do tempo total de sono neste período (mais evidente nas pessoas noctívagas) que por vezes poderá mesmo manter-se durante todo o período do horário de verão. 

Nos últimos anos temos assistido ao debate da mudança da hora, onde esta questão tem sido amplamente debatida. Os cientistas têm alertado para a importância da sincronização dos ritmos biológicos à hora solar e como tal, para a manutenção ao longo do ano da hora padrão. Desta forma mantendo o melhor alinhamento possível entre estes relógios (biológico e solar) e o relógio social, mas, infelizmente, uma vez mais iremos assistir neste fim de semana à introdução deste adiantamento do relógio social aumentando este desalinhamento e consequentemente o risco para um aumento dos níveis de privação de sono e problemas associados.

Posto isto apenas posso dizer... façam atividades ao ar livre para uma melhor sincronização e cuidem do vosso sono, ele é fundamental para assegurar uma boa vigília!
 

Cátia Reis, Professora universitária e investigadora em ritmos biológicos e sono (UCP e iMM - FMUL)